DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS - UMA CARNAVALIZAÇÃO BAIANA

 

Lourdes de Fátima Santos Pinto

 

 

O entendimento do termo malandro numa sociedade que se estrutura como a brasileira compreende um ser que transita entre o mundo marginal e o aceitável socialmente, representa uma recusa, não radical, de sujeição às normas sociais. O malandro assume na vida o lado boêmio - a sexualidade, o jogo que mantém mediante pequenas contravenções, perfeitamente desculpáveis, aliás, o malandro é um vitorioso já que nada o derrota. Consegue safar-se das brigas, dos débitos, etc. Há sempre uma saída para o malandro.

O malandro Vadinho situa-se como figura de resistência a um mundo pequeno-burguês centrado em valores como o trabalho e o dinheiro.

É flagrante, no romance, que o dinheiro para Vadinho representa não um meio de segurança, pois se assim o fosse, ter-se-ia Vadinho empenhado em acumulá-lo para, deste modo, adquirir estabilidade econômica.

A dissociação entre o dinheiro e o trabalho vem através das roletas mágicas que fazem uma nota multiplicar-se em mil, vem dos palpites sonhados, dos números casados; vem das relações sociais. Serve o dinheiro para o conserto do mundo e principalmente para o prazer.

Vadinho olha o trabalho de modo descompromissado, afinal o valor não está ali e sim na possibilidade de ganhar ou perder a cada noite o jogo nas ruas de Salvador, para isso ele usa toda a energia que fosse necessária. Tem-se em Vadinho o bon—vivant.

 

(...) Quando fizera Vadinho caso de dinheiro, Madame? Mesmo limpo, no miserê, a nenhum, sem tostão furado, nem assim dava valor ao dinheiro, e se o buscava em insensato afã era para jogá­-lo fora na roleta. Arrancava num ímpeto as células dos bolsos cheios. Quase ficam vazios: os olhinhos de Madame Claudette se acendiam de cobiça atrás da máscara de pó de arroz e creme, aquela múmia fremia à vista das notas de cem e de duzentos.[1]

 

A malandragem estabelece uma nova leitura das relações sociais, firma um novo jogo social com o primado da esperteza, isto é, a capacidade de criar soluções para fatos do dia-a-dia, nem sempre ortodoxas.

Existem cenas, no texto de Jorge Amado, em que o narrador lança imagens bem precisas para caracterizar Vadinho como personagem desprendido dos valores materiais, solidário com os amigos, desse modo, torna-se inevitável a rendição do leitor ao jeito malandro e amoroso de Vadinho que parece encarna uma visão utópica do malandro brasileiro. Curioso observar que o submundo freqüentado por Vadinho prima por relações fraternas e nenhum perigo. Talvez resida nesse conjunto de fatores urna visão romântica da atitude transgressora de Vadinho.

Ora, ao invés da indignação ou da censura ao comportamento de Vadinho, surge uma expectativa quanto as suas próximas peripécias que se iniciam na narrativa com sua morte, travestido de baiana com enorme raiz de mandioca a insinuar-se embaixo das saias, segue através de suas andanças pelas camas de toda e qualquer mulher, sem nada respeitar: estendendo as suas conquistas amorosas às alunas de Flor, às moças dos castelos e nesse rol de ações não podem faltar o jogo e as suas interferências do além a favor dos amigos de farra.

O fascínio do bacará e da roleta sobre Vadinho reside na possibilidade de inverter uma realidade, às vezes sofrida, num passe de mágica. O jogo estabelece o sonho no cotidiano; iguala os homens já que o elemento sorte é aleatório e tanto pode premiar  o miserável como o homem de posses. Não é só essa capacidade de subverter a realidade que seduz Vadinho. Há, no ato de jogar, um prazer que envolve o risco de perder ou ganhar a embriagá-lo.

Propõe Vadinho, através da prática da astúcia, um outro mundo cujo valor não é o trabalho; isto o personagem deixa bem claro pelo seu pouco empenho nas funções que exerce em uma repartição pública. Vadinho investe toda a sua capacidade no jogo e nas mulheres, não possui o pragmatismo que norteia o pequeno­burguês, em verdade, a este se opõe.

A imagem erótica de Vadinho constrói-se através de uma associação entre a semi-marginalidade e a sensualidade. O contraponto é oferecido ao leitor pela figura do farmacêutico Teodoro que parece insinuar que o erótico só se manifesta com pujança onde há a malandragem, ou melhor, num mundo às avessas.

Em Dona Flor e seus dois maridos, o aspecto erótico se anuncia desde as primeiras páginas. Há uma eroticidade que não escolhe lugar nem hora e passa, necessariamente, pela desconstrução da mise-en-scènedas relações sociais. Vadinho não tem hora nem lugar para dar vazão ao desejo sexual. Encontra-se o mesmo rompendo barreiras sociais, através do falo. Nada constitui empecilho. Vai bem com as mulheres de serventia e com grã-finas de Salvador, moças de família bem assentadas e de tradição.

Vadinho, através da cama, vai pondo a nu a hipocrisia social. O elemento erótico impõe-se não apenas como um atrativo para a leitura do livro, mas também como um componente fundamental desta narrativa.

A performance sexual de Vadinho o eleva à categoria de mito, o irrecusável, o nunca preterido, já que ninguém resiste as suas cantadas. Esse desempenho sexual eficiente e inimitável garante a Vadinho a permanência na narrativa. O luto de Dona Flor é antes de tudo fálico, por isso tão sentido.

Roberto Damatta, em seu artigo Dona Flor e seus dois maridos: um romance relacional, toma a obra de Jorge Amado como paradigma para os problemas da sociedade brasileira. Vendo o referido romance como um espaço dialógico que se estabeleceria entre categorias divergentes, termo usado por Damatta, que, no dia a dia, estariam subordinadas a uma certa hierarquia.

Ainda seguindo o raciocínio de Roberto Damatta, o que se vê em Dona Flor é a carnavalização através das relações estabelecidas entre os diversos personagens representantes de classes sociais diferentes.

 

Ninguém melhor do que esse romance de Dona Flor e seus dois maridos para exemplificar essa fórmula tão pouco discutida e percebida e, no entanto, tão básica para entender socialmente um universo como o brasileiro.[2]

 

Em síntese, D. Flor representaria um projeto político que teria por base a capacidade do estabelecimento de relações fraternas - enfim de unir os diversos brasis.

 

Trata-se de um universo como esse que lemos em Dona Flor, onde todos são amigos de todos e onde para cada crise existe um amigo que ajuda, ampara e consola. Será esse o mundo em que todos nós brasileiros gostaríamos de viver?

O sucesso dos livros parece atestar que a resposta é positiva.[3]

 

O que se observa no romance não é a capacidade dele ser um projeto centrado na solidariedade, na ausência de barreiras intransponíveis e sim que ele reflete uma prática da dissimulação, do não enfrentamento do stabilisment. Na verdade, o mundo da transgressão existe para dar fôlego ao outro sisudo. Os momentos ricos de trocas acontecem dentro de um organograma planejado pelo mundo da hierarquia, das regras sociais e aí se tem exemplificando a alegria planejada do carnaval que introduz Vadinho no romance. Há, é claro, diversos outros momentos que podem ser citados, mas um, com certeza, é inevitável: a visita de Vadinho a Dona Flor quando esta já está casada. Ora,as visitas acontecem no espaço e no tempo deixados por Dr. Teodoro e, mesmo quando a presença dos dois maridos é simultânea, Teodoro ignora a existência do finado Vadinho, assim como toda a sociedade. O mundo capitaneado por Vadinho só pode existir por debaixo dos lençóis de preferência de Dona Flor.

Talvez o que impressione em Dona Flor e seus dois maridosseja a capacidade de projetar uma imagem desejada da baianidade, fundada na crença da alegria perene, do sexo em prontidão, da possibilidade de haver sempre um jeito familiar, relacional para contornar as crises.

Dona Flor e seus dois maridos espelham uma visão da baianidade que está centrada na singularização da terra e do povo. Esta visão de pertencimento a uma terra cuja marca é a miscigenação racial e a flexibilidade social encontra forte ressonância no povo e pereniza-se através de músicas de grande apelo popular que tem Dorival Caymmi um dos inúmeros porta-voz dessa identidade baiana:

 

São Salvador / Bahia de São Salvador / terra do nosso Senhor / Pedaço de terra que é meu

São Salvador / Bahia de São Salvador / A terra do branco, mulato / A terra do prelo doutor

São Salvador / Bahia de São Salvador / A terra do nosso Senhor do Bonfim

Ó Bahia / Bahia cidade de São Salvador

 

Há um slogan recente que fala muito do ser baiano: Sorria, você está na Bahia. Aqui residiriam as condições da plena alegria. Ter-se-ia na terra Bahia a subversão de todo estado melancólico, de toda sisudez, de toda repressão sexual, de todo recalque social.

Importa salientar que esta cordialidade observada por Roberto Damatta resulta de um binômio indissociável - homem / mulher — Bahia. O destaque que é atribuído às questões culturais próprias do universo baiano desautoriza a generalização.

Na narrativa amadiana, o esgarçamento das diferenças, quer sociais, quer culturais, acontece como um ato de vontade que se estabelece no indivíduo em consonância com a comunidade. A narrativa propõe a convivência do mundo cultural oficial, hierarquizado, com o mundo cultural popular; mesmo que esta convivência se estabeleça sob a égide da dissimulação; driblando, assim, o enfrentamento.

Convém constatar que o termo cultura oficial, aqui tomado, está na mesma acepção empregada por Mikhail Bakhtin em A cultura popular na Idade Média e no Renascimento.Cultura oficial era a que pertencia a um universo consentido como modelo e com papéis definidos hierarquicamente, jácultura popular era a contribuição de origem popular, que constituía um mundo às avessas. Observa-se que na teoria desenvolvida pelo estudioso russo esses mundos não são excludentes.

 

Na prática, a festa oficial olhava apenas para trás, para o passado de que se servia para consagrar a ordem oficial presente. A festa oficial às vezes mesmo contra as suas intenções tendia a consagrar a estabilidade, a imutabilidade e a perenidade das regras que regiam o mundo: Hierarquias, valores, normas e tabus religiosos, políticos e morais correntes (...)Assim, a festa oficial traía a verdadeira natureza da festa humana e desfigurava-a. No entanto, como o caráter autêntico desta era indestrutível tinham que tolerá-la e às vezes até mesmo legalizá-la parcialmente nas formas exteriores e oficiais da festa e conceder-lhe um lugar na praça pública.[4]

 

Ora, a obra de Jorge Amado - Dona Flor e seus dois maridos se constrói através da interseção desses dois mundos culturais. De um lado, o universo de aspirações pequeno-burguesas de Dona Flor, do outro, a transgressão deliberada de Vadinho. Ela ordeira, dedicada como convém a uma mulher casada; ele, desordeiro, vadio, jogador inveterado, enfim o protótipo do malandro.



[1] AMADO, Jorge. Dona Flor e seus Dois Maridos. São Paulo: Livraria Martins, 1966, p. 137.

[2]DAMATTA, Roberto. A Casa e a Rua. RJ: Editora Guanabara Kosgan, 1991, p. 135.

[3]DAMATTA, Roberto. A Casa e a Rua. RJ: Editora Guanabara Kosgan, 1991, p. 139-140.

[4] BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento. Brasília. Hucitec. 1993, p. 8.